Alguém ainda se lembra do apagão geral? Não, não estou a falar daquele que aconteceu no vosso quarteirão, depois da passagem de uma das várias depressões que atravessaram o país. Refiro-me ao de 28 de abril, em que Portugal Continental, de ponta a ponta, ficou sem energia elétrica por algumas horas. Então, já se lembram?
Apesar de já ter passado algum tempo desde o acontecido, creio que essa memória, para quem a viveu, continua bastante viva.
É incrível como que de um momento para outro, tudo aquilo que nos rodeia mudou drasticamente. Passámos de um sistema rotineiro, para o caos, em segundos.
Os meios de transporte dependentes de corrente elétrica pararam, indústrias e postos comerciais paralisaram, a sinalética deixou de funcionar e as pessoas deixaram de estar ligadas à “grande rede de comunicação”.
Pessoalmente, presenciei imagens que jamais imaginaria vê-las. As estações rodoviárias da Campanhã e Coimbra cheíssimas de gente, sobre uma densa escuridão, a incapacidade de grandes empresas e pequenos postos de comércio de responderem à demanda de clientela sem o auxílio dos sistemas eletrónicos, os autocarros públicos a funcionarem com fluidez e uma grande massa de pessoas a camuflarem o stress acumulado com atividades de lazer em espaços públicos (caminhadas, prática de desporto, piqueniques, etc.).
Quando o apagão se deu, estava eu no aeroporto do Porto. Tinha acabado de aterrar e comprado o bilhete de transporte para Coimbra – mal sabia eu a sorte que tinha tido. Após o sucedido, um “caos silencioso” se instaurou. Digo “silencioso”, porque começaram os cochichos, mas não era observável aparato ou desespero pelas pessoas. As coisas fluíam com normalmente. Já prestes a apanhar o autocarro para seguir viagem, conheci um rapaz (das ilhas, como eu) que também precisava de ir para outra cidade, mas não conseguia comprar o bilhete na plataforma online devido ao corte das ligações. Fiquei impressionado ao descobrir que também não era possível fazê-lo a bordo do autocarro. Como faria ele para chegar ao seu destino? Ficou aquelas horas à espera para comprar o seu bilhete? Se o período de apagão fosse mais longo, como se iria safar?
Para aqueles que reiteram o acelerar da transformação do comércio físico para o digital, é importante pegar neste exemplo como uma grave problemática, caso a situação se volte a repetir. Por estas e por outras, é sempre bom ter algum dinheiro físico connosco. Como diz o outro, “nunca se sabe o dia de amanhã”.
Foi uma pequena amostra de que os nossos cérebros já não estão preparados para lidarem com o corte a longo prazo da energia elétrica. A dependências das tecnologias que usamos diariamente, tanto a nível pessoal, como profissional, estão fortemente dependentes de uma ficha e uma tomada.
Outro ponto que foi possível observar (e nesta incluo-me), foram os deficientes kits de sobrevivências. Apercebi-me da falha de elementos importantes, com destaque para o mais essencial de todos, a água potável. Como a temos de forma acessível, raramente nos lembramos que, num instante, esse fornecimento pode acabar.
Como se costuma dizer, “só nos lembramos da importância de algo quando a perdemos”. Uma frase que nestas poucas horas – felizmente que assim o foram – uma grande massa populacional sentiu-a na pele. Em pouco tempo, na generalidade, entrámos num estado de desespero, assimilando-se aos tempos não muito distantes do confinamento pela COVID-19.
Após esta experiência, questiono: se em vez de algumas horas, passasse a dias ou semanas, como lidaríamos com tal situação?